O GPS maligno
Meu nome é Oscar, possuo um Gol Geração 2 mi prata, motor 1.0, 8 válvulas, ano 1999. Esse carro é meu xodó, dou revisão de 6 em 6 meses, só uso óleo de boa qualidade, coloquei um estofado de retalho colorido nos bancos, um ventilador no painel, um adesivo ‘Jesus é o Senhor’ no pára-brisa traseiro, neon azul no teto e embaixo do carro, rebaixei, roda aro 15″ do golf, manopla, volante e pedais esportivos.
Faço faculdade de História na UFG, o pessoal que estuda lá é muito envolvido com álcool e maconha, e por influência deles acabei me distanciando do caminho do Senhor.
Passei a beber todos os finais de semana com a turma da universidade, tudo por causa de uma menina boêmia, que acompanhava o grupo. Ela nunca me deu bola, eu ficava ali bebendo e conversando com esperanças que ela reparasse em mim. Acabei me tornando um álcoolatra.
Goiânia é uma cidade bem grande, conheço pouco, sou do interior; Às vezes dirigindo de volta pra casa bêbado eu me perdia, tinha que ficar pedindo informação de madrugada, coisa muito perigosa. O meu amigo, Michel, me recomendou comprar um aparelho GPS, disse que era muito bom e que tava barato. Dei uma pesquisada e achei muito interessante, além de me ajudar seria um incremento a mais no meu carro.
Fui ao camelódromo em Campinas e comprei um novíssimo GPS da marca BOOSTER, fixei-o no vidro de meu carro e fiquei muito contente. Fiquei muito feliz com o aparelho, agora eu podia ir em qualquer lugar! A senhorita ia me indicando os caminhos: “Vire à esquerda”, “Vire à direita”, “Siga em frente por 100 metros.” …
Sempre que voltava da balada ligava o aparelho e ele ia me guiando até meu lar. Só não o usava para os caminhos mais comuns, como ir pra UFG e para a Igreja. Nesta época eu ia a Igreja só para ter status de bom moço, uma fachada apenas, para ficar ‘bem-na-fita’, mal escutava as palavras do pregador.
Por causa do meu distanciamento o Diabo me colocou uma armadilha, e para isso usou a coisa que eu mais amava: o meu carro.
Mais uma vez fui beber, enchi a cara, não peguei mulher nenhuma como sempre. Saí do barzinho bem embriagado, entrei no meu carro, marquei a rota do GPS pra minha casa. E logo a mulher falou: “Siga adiante 3 kilômetros”. Tudo bem, lá fui. Em seguida ela me mandou pegar a esquerda, virei. O problema é que era uma ciclovia, e assim que me situei ouvi um impacto. Atropelei um bicicleteiro, ele arrebentou o meu pára-brisa e caiu no asfalto. Meu primeiro pensamento foi de descer do carro e dar assistência pro atropelado, mas logo após a batida a voz disse: “Siga adiante por 600 metros”. Aí tiver que ir e deixei o ciclista lá estirado. Tentei vê- pelo retrovisor, mas tava bastante escuro o local.
Finalmente cheguei em casa, estacionei o carro e fui direto pra cama, tava bêbado demais. No outro dia acordei na maior ressaca, nem me lembrava direito do acontecido. Tomei o café e passei pela minha garagem. Choque ! Vi meu carro com capu amassado e pára-brisa todo trincado e com sangue.
Agora mal consiguia dormir com tamanha dor de consciência. Será que havia matado o cara ?
Essa dúvida corroeu meu peito por muito tempo, pois apesar do alcoolismo ainda era uma pessoa temente à Deus. Mantive essa história só para mim, até que um dia na Igreja, pastor Salatiel Botafogo se aproximou e perguntou o que me aflingia e que havia notado que eu estava triste ultimamente. Pedi pra conversar particularmente com ele, fomos ao seu escritório e lá desabei, contei toda a história e meu envolvimento com a cerveja de marca Brahma.
Salatiel me iluminou com sua sabedoria e disse que a única maneira de eu ser perdoado por Deus era passando pelo batismo na piscina sagrada, foi o que eu fiz e depois que fui tocado pelo Espírito Santo renasci em Cristo e me tornei uma nova pessoa.
Oscar.

Me chamam Chico Balaio, sou ex-álcoolatra e ex-jogador compulsivo. Todos os dias eu jogava carteado apostado no boteco do Divino Perereca, na cidade de Itaberaí lá pelos idos de 1989.
Depois de 40 minutos de viagem, cheguei ao terreiro, me benzi com padre que estava sentado na porta fumando um baseado e entrei. Henrico estava na cama, coberto por três cobertores de lã vermelha. Ele suava frio e tinha espasmos musculares constantes. Perguntei se ele não queria ir para o hospital, ele aceitou. Entramos no meu carro (agora um Maverick Gt V8 de cor azul) e fomos ao hospital, no caminho, ele começou a conversar comigo num tom de despedida.

