Viagem Astral
Meu nome é Rita de Cássia, tenho 24 anos, moro em São Paulo, capital.
Minha família é espírita, eu sempre fui interessada em assuntos esotéricos, participava de sessões de incorporação, lia Krishnamurti, Paulo Coelho, Indira Gandhi, fazia o jogo do copo e até cheguei ao cúmulo de praticar Yoga, uma arte marcial indiana.
No alto da minha cegueira espiritual acreditava em reencarnação, espiritismo, candomblé e imagem de santos. Perambulava pelas ruas nas madrugadas procurando saciar meu vício, o crack, foi quando, inadvertidamente, encontrei um folheto impresso em preto e branco, numa folha de papel reciclado preso à um poste de iluminação pública, dizendo o seguinte: "Pai Sabino; faço regressão . Veja suas vidas passadas, presentes e futuras agora mesmo! Dividimos em até 3X sem juros no cartão ou boleto bancário."
Fiquei imaginando, o que será que eu tinha sido na vida passada? Uma faraotiza, um general romano, uma princesa -guerreira, um franco atirador russo na segunda-guerra?
Fiz uma "visita" à casa de minha avó e fiz o "limpa" numas jóias, que penhorei logo em seguida para poder pagar a minha sessão de regressão com o pai Sabino.
Cheguei ao escritório do Pai Sabino, ele, com seus setenta e poucos anos, calvo e sem os dentes, se assemalhava muito ao senador Paulo Duque. Na sua mesa de pau brazil, estavam dispostos santinhos em estilo barroco, um punhal cerimonial, uma pata de bode que usava de peso de papel, uma cobra naja em conserva num pote e uma coruja taxidérmica.
Me deitei no divã, fui submetida à infusão de fumaça. Pai Sabino iniciava o tratamento enrolando um haxixe mui apertado, com folhas prensadas de primeira qualidade, classe A. e saí de meu corpo pela primeira vez. Me senti muito leve e flutuava no ar, pai Sabino me guiou até minha vida passada. Me vi como lutador de telecatch, consumido pelo álcoolismo e endividado sofria uma vida austera. Fui morto pelo lutador Ted Boy Marino, que quebrou meu pescoço com o golpe 'tesoura'.
Depois desta sessão passei a "sair do corpo" todas as noites.
Numa destas viagens astrais estava andando pela minha casa e vi um garoto com trajes diferentes, um boné vermelho, calça Jeans azul e uma mochila nas costas.
Ele me disse que seu nome era Ash, que ele trabalhava no plano espiritual capturando criaturas e me chamou para ajudá-lo. Devido a minha ideologia, não pensei duas vezes, passei a segui-lo.
Logo cedo, cercamos um animal que se assemelhava à um rato, era amarelo e desferia raios elétricos. Depois de uma peleja Ash atirou uma arapuca esférica espiritual cravada com as iniciais. Conseguiu pegá-lo de primeira pois fez uso de uma arapuca 'master'.
Todos os dias não via a hora de ir dormir e passei a tomar medicamentos pesados pra ficar mais tempo no mundo astral. Cheguei a tomar até quatro comprimidos de barbitúricos por noite.
Esse meu vício em capturar estas criaturas destruiu minha vida, fui despedida da Rodoviária onde trabalhava como supervisora de serviços gerais, por chegar atrasada, ia mal nos estudos e perdi muitos amigos. Ao contar as minhas aventuras eles achavam que eu estava louca, zombavam de minha cara e faziam piadas como:”E aí, Rita, capturou muitos pokémons hoje?"
Humilhada, tomei a decisão de parar de sair do corpo, mas eu não conseguia. Dormia de bruço, mas mesmo assim meu espírito saia pelas costas, tomei banho de arruda com sal grosso, consultei o pai de santo do meu centro espírita, mas nada adiantava.
Larguei os estudos, fui demitida da rodoviária e passei a ser pedinte. Todas as doações eram revertidas para sustentar meu vício.
No auge, às vezes, conseguia encarnar nesse mundo fantástico acordada. Meu companheiro, pokémon Entei, conversava comigo e sempre me acalmava nos momentos difíceis, dizendo:" Tá tudo bem agora".
Certa feita, depois de beber o sopão da prefeitura, vi o Ash do outro lado da Avenida Paulista, acenando para meu grupo. Percebi que ele estava correndo perigo, vi a equipe Rocket (sua arquiinimiga) escondida sorrateiramente atrás de uma fonte d’água, provavelmente, articulando o roubo do seu bem mais precioso, o Pikachu.
Prontamente, dei um salto que estimo ter batido o recorde da Mauren Maggi nos jogos olímpicos de Pequim, atravessando a primeira via, encurralada pelos carros, parti em direção contrária ao trânsito, sendo atropelada por um ônibus coletivo. Mesmo com uma fratura exposta na perna e algumas escoriações pelo corpo, continuei minha missão de salvar o Ash, e ,quando consegui alcançá-lo, desmaiei. Acordei no hospital.
Ao contar a história da equipe Rocket fui encaminhada à ala psiquiátrica. Me diagnosticaram erroneamente como portadora de uma branda esquizofrenia, psicose e transtorno compulsivo obsessivo.
Minha sorte foi ter dividido o leito com o pastor Ezequiel, que na época estava fazendo uma remoção da vesícula. Relatei à ele todas minhas aventuras e ele explicou que monstrinhos de bolso não existiam, eram na verdade demônios, coisa do espiritismo. Depois disso me encheu com palavras belas e sublimes e finalmente me converteu ao protestantismo.
Hoje sou uma respeitada pastora na Igreja Internacional e tenho o dom da vidência, tenho contato direto com o Espírito Santo, que me passa as últimas fitas que andam acontecendo na vida das pessoas.
Venham me consultar.
Pastora Rita de Cássia


